Publicações – Caderno 16

Editorial

O Caderno 16 da Terras Quentes não é apenas mais um para cumprir a prova de vida da Associação: é o volume que, para lá de vir contar História, fará parte dela mesma pela importância do que vem revelar e pelas potenciais consequências que tal poderá ter para o nosso futuro. Macedo de Cavaleiros, depois deste, não só vê mais uma parte do seu passado descoberta como passa a fazer parte da constelação célebre e indutora de recursos que é a do Mundo Templário. De facto, não pode deixar ninguém indiferente a investigação feita e que vem revelar que poderemos passar a estar inscritos nos roteiros da Ordem do Templo, calcorreados que foram os nossos caminhos pelos cavaleiros mais fantásticos e célebres da história medieval europeia.


Por isso, estou a escrever um editorial que não é o corolário ou uma abertura conclusiva dum trabalho que ao ver agora a estampa, chegue ao fim. Bem pelo contrário. Tenho a certeza de que este editorial é antes o início dum grande caderno de encargos que deve mobilizar todos, macedenses residentes ou na diáspora, comerciantes e políticos, empresários e estudantes, eruditos e artistas, todos, para pegar no valor desta descoberta e pô-la a render, suscitar turismo, criar cultura, promover iniciativas, fazer dela um motor de desenvolvimento e instrumento de combate ao despovoamento, razão de ser para atracção de pessoas, motivo de orgulho e bairrismo para todos nós. Saibamos aproveitar a oportunidade, pô-la a render como os talentos da parábola, cultivemo-la para que cresça e tenha um efeito multiplicador de progresso.


Estamos em tempos estranhos e inimagináveis para a nossa vida, em que, à incerteza que tem sempre o devir, se junta muita ansiedade e, até, medo perante as circunstâncias. Não deixa de ser um acontecimento feliz o de, precisamente neste ambiente, surgir este achado fulgurante de os Templários fazerem parte do nosso passado e, impondo-se assim no nosso presente, renascidos de séculos de silêncio, se venham a afirmar como possivelmente determinantes do nosso futuro. Portadores de esperança. Factores de riqueza. Sinais de um promissor tema de acção.


Por isso, o artigo A Ordem dos Cavaleiros do Templo no Nordeste Português -Macedo de Cavaleiros, um Concelho Templário de Carlos A. Santos Mendes, Miguel Sanches de Baêna e Pedro Gomes Barbosa, justificaria por si só a edição deste Caderno. Mas há um outro artigo, “Os filhos do vento” da Terronha de Pinhovelo-Macedo de Cavaleiros, assinado pelos dois primeiros autores referidos, que também muito nos deve dizer.


A Terronha de Pinhovelo era o Macedo de Cavaleiros do Império Romano, com uma existência ditada pelas mesmíssimas razões que ditaram a existência da nossa aldeia-vila-cidade: a localização geográfica, no centro e cruzamento de rotas. A intersecção entre os apetrechos relacionados com os cavalos, o selo do correio imperial e a localização do povoado, estabelece uma não só plausível como provada razão de ser: o dum centro de comunicações. Apesar do muito que sabemos já e da importância desse conhecimento sobre este assentamento pré e romano, tal conhecimento apenas aumenta a responsabilidade de termos de investir mais em investigação arqueológica. Trata-se dum investimento com retorno, trata-se de, também aqui, estarmos a lançar bases para o nosso futuro.


E se a Terronha era o Macedo de Cavaleiros do tempo romano, a Fraga dos Corvos, no Monte Mé da Serra de Bornes, seria o Macedo de Cavaleiros da Idade do Bronze e do Ferro. Começaram ali a viver pessoas há mais de três mil anos! Da área muito pequena escavada até agora ficou revelada uma janela escancarada sobre um povoado grande, complexo e monumental à escala desse tempo, tecnologicamente do mais avançado que existia no mundo, a metalurgia do bronze, numa determinada fase, e em inter-relação com o Norte da nossa Meseta e o Sul Mediterrânico da nossa Península. Tenho a certeza, a firme certeza, de que estes achados, da Terronha de Pinhovelo e da Fraga dos Corvos, hão-de atrair as atenções de decisores e políticos e ser merecedores da sua promoção e investigação em larga escala. A começar pela garantia da sua urgente e necessária salvaguarda como bem cultural. Daí a extrema importância de mais este artigo de João Carlos Senna-Martinez, Elsa Luís e Carlos Mendes.


Cabe aqui um parágrafo para uma homenagem a estes autores e a todos os que, ao longo dos anos, trabalharam em prol de Macedo de Cavaleiros e dispuseram do seu tempo para apresentar os seus produtos de investigação nas nossas Jornadas de Primavera e publicá-los nos nossos Cadernos. Uma sociedade só tem futuro se conhecer e respeitar o seu passado. E poderá prosperar sabendo usar com sabedoria o conhecimento sobre o seu passado.


Mesmo que hoje nem todos vejam com clareza tudo o que queremos dizer, estamos a cumprir o nosso dever para com a nossa terra. Também, há poucas décadas, alguns não queriam ver tudo aquilo que todos os Cadernos Terras Quentes vieram, afinal, demonstrar – e ultrapassando todas e as melhores expectativas. Tal como o futuro ultrapassará as nossas de hoje, já de si tão elevadas, motivadas pelo recheio cultural precioso que este Caderno 16 contém. Cavalos e Cavaleiros, muito mais do que o sobrenome da nossa cidade, do nosso concelho, são bem um programa de acção. Saibamos estar-lhe à altura!

Manuel Cardoso.

Nota do diretor dos Cadernos “Terras Quentes”

Seria injusto não se fazer uma referência ao quarto artigo inserto neste Caderno 16, com o título “Manuel Cardoso – uma faceta secreta”. Por certo, por constrangimentos e humildade pessoais não quis o editorialista referir-se a um assunto que lhe toca profundamente, o que se compreende e aceita. Mas nós não sendo pelo facto de o termos por amigo e companheiro desta nossa luta pela história e identidade dos Macedenses, não aceitamos esta exclusão do editorial. Em qualquer momento este artigo seria sempre bem-vindo a um qualquer Caderno Terras Quentes, mas se tivéssemos de escolher o momento, o momento seria este. Momento estranho este que se vive, onde aparece aqui e ali alguém a querer “derrotar a história”, mas a história não se derrota, estima-se, preserva-se, aprende-se, enaltece-se, enobrece-se ou critica-se, mas é, e será sempre, história, a nossa história. A narrativa que Manuel Cardoso nos conta só tem de nos orgulhar a todos, não só Macedenses, mas a todos nós Portugueses, alguém que arrisca ou dá a vida pelos outros, pelo bem dos outros, sem nada pedir em troca é uma lição para todos nós e merece a nossa reverência (felizmente temos tido muitos e bons exemplos, na nossa história). O altruísmo, a humildade e o afeto, por vezes nasce connosco, mas na maioria dos casos são as agruras da vida que nos vão formatando tornando-nos melhores. A História tem disto, abrimos o caderno 16 com notícias de há 800 anos e fechamos com notícias de há 80 anos. Eu aprendi com todas elas.


E termino com mais um ensinamento que a história nos trouxe há 500 anos: Citando Nicoló Macchiavelli, que no capítulo V da sua obra “O Príncipe” nos recorda: “Os povos que perdem a liberdade pela força, pela força haverão de reconquistá-la. Mas os que perdem a liberdade por descuido, estes demorarão muito a voltar a ser livres.” (texto adaptado). Lembremo-nos (e muito de nós ainda se recordam) que a última vez que isso aconteceu em Portugal – por questões de extremismos e populismos – estivemos 48 anos à espera que a liberdade voltasse e creiam que foram tempos bem piores do que este confinamento sanitário em que vivemos há mais de um ano do qual todos nós já estamos saturados.

Carlos Mendes.